Pare de chamar todo mundo de narcisista.
Descrever um comportamento prejudicial é mais útil do que atribuir um diagnóstico.
Beatriz Iannotta
8/13/20262 min read
Escrevi este texto depois de ler uma reflexão da psicóloga Rachel Needle sobre o uso banalizado do termo.
Reconheço meu papel em disseminar o termo com minhas redes sociais, mas compreendo que chegou a um limite.
Narcisismo virou o diagnóstico mais popular da internet. Ex-namorado, chefe, mãe, sogra: se a pessoa te machucou, alguém no TikTok já explicou que ela é narcisista.
Entendo perfeitamente por que esse rótulo cola. Quando você passou anos confusa dentro de uma relação, encontrar uma palavra que parece organizar tudo é um alívio enorme. De repente existe nome, existem vídeos descrevendo exatamente o que você viveu, existe gente com histórias iguais. Faz sentido buscar isso.
Mas quando alguém chega na sessão dizendo "meu marido é narcisista", eu ainda não sei nada.
Não sei se ele decide as coisas sem te consultar. Não sei se ele critica e depois diz que você é sensível demais. Não sei se ele some por dias quando vocês brigam. O rótulo encerra a frase; a descrição abre o trabalho.
Por que isso importa na TCC
Na terapia cognitivo-comportamental a gente trabalha sobre comportamento observável e sobre os pensamentos que sustentam a sua reação a ele. "Narcisista" não é comportamento — é uma conclusão. E conclusões fechadas têm um efeito conhecido: elas param a investigação.
Depois que você decide que a pessoa é narcisista, tudo passa a confirmar isso. O pedido de desculpas vira manipulação. O carinho vira love bombing. O silêncio vira punição. Talvez algumas dessas leituras estejam certas — mas quando nenhuma informação nova consegue mudar a hipótese, isso não é clareza psicológica. É viés de confirmação com vocabulário técnico.
E tem uma coisa mais delicada: o rótulo às vezes funciona como esquiva. Dizer "ele é narcisista" custa muito menos do que dizer "toda vez que eu falo que estou magoada, ele inverte a conversa e eu acabo pedindo desculpa". A segunda frase te expõe. A primeira te protege — e também te deixa parada.
Você não precisa de diagnóstico para se levar a sério
Esse é o ponto que eu mais repito no consultório.
Seu parceiro pode ser controlador sem ter transtorno de personalidade. Sua mãe pode invalidar você há trinta anos sem ter transtorno de personalidade. Seu chefe pode ser injusto sem ter transtorno de personalidade.
Nenhum dos dois lados dessa conta muda: um laudo não tornaria o comportamento mais grave, e a ausência dele não torna aceitável. Você não precisa provar patologia para ter direito de estabelecer limites, reduzir contato ou terminar.


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