Por que a gente mente sobre quem é

A psicologia por trás da mentira extrema tem muito pouco a ver com confiança.

Beatriz Iannotta

8/13/20263 min read

Por que a gente mente sobre quem é

Todo mundo edita.

Você arredonda o cargo no LinkedIn. Diz que "está lendo" um livro que abriu duas vezes. No primeiro encontro, vira alguém que treina com regularidade. Numa entrevista, transforma uma tarefa pontual em experiência consolidada.

Nada disso é patologia. É o que a psicologia social chama de gestão de impressões: a gente ajusta a versão de si mesmo em função de quem está olhando. Leary e Kowalski mostraram, já nos anos 1990, que esse impulso não é constante — ele dispara em três situações. Quando a plateia é grande. Quando o que está em jogo importa muito. E, principalmente, quando existe uma distância entre como você acha que aparece e como você gostaria de aparecer.

É essa terceira condição que me interessa clinicamente.

A mentira mede o tamanho da distância

Quanto maior o abismo entre quem você é e quem você acredita que precisaria ser para ser aceito, mais trabalho de edição você faz.

E aí a edição deixa de ser social e vira sintoma. Não porque a pessoa é desonesta — mas porque, por baixo dela, quase sempre existe uma crença do tipo "se me virem como eu sou, vão me achar insuficiente".

Na TCC, isso tem nome: é um comportamento de esquiva. A mentirinha alivia na hora — você escapa do julgamento que temia. E, como todo alívio imediato, ela ensina o cérebro a repetir. O problema é que a esquiva nunca testa a crença. Você nunca descobre que seria aceito do jeito que é, porque nunca deixou ninguém ver.

O custo que ninguém calcula

Manter uma versão editada de si mesmo é caro.

Você precisa lembrar o que contou para quem. Precisa evitar situações em que as duas versões possam se encontrar. Precisa recusar convites, mudar de assunto, controlar o ambiente. E precisa conviver com a sensação constante de que, se te olharem de perto demais, o castelo cai.

Muita gente chega na terapia descrevendo isso como ansiedade social ou síndrome do impostor. E quase sempre existe uma camada embaixo: não é que a pessoa se ache uma fraude. É que ela vem se apresentando como outra coisa há tanto tempo que perdeu a chance de descobrir se a versão real bastaria.

E os casos extremos?

Existe um fenômeno bem mais raro, em que a fabulação se sustenta por anos e chega a envolver identidades inteiras — chamado de pseudologia fantastica, ou mentira patológica. Não é um diagnóstico formal do DSM-5, o que torna esses casos difíceis de delimitar tanto clínica quanto juridicamente.

E aqui vale desfazer uma intuição comum: a psicologia por trás da mentira extrema tem muito pouco a ver com excesso de confiança.

A leitura de fora costuma ser essa — "que cara de pau", "que audácia". Mas o que a literatura sugere é quase o oposto. Nesses casos, a mentira tende a funcionar menos como uma jogada calculada e mais como manejo de uma ferida antiga: uma forma de administrar a sensação de não ser suficiente sendo apenas quem se é.

Ou seja: o mecanismo é o mesmo do seu arredondamento no LinkedIn. Muda só a escala — e o quanto o freio que normalmente nos segura (a vergonha, o medo de ser descoberto, o simples amadurecimento) chegou a se formar.

A pergunta que vale

Não é "eu minto?". É:

O que eu preciso esconder para achar que serei aceita?

A resposta a essa pergunta costuma ser o começo de um bom trabalho terapêutico. Porque o objetivo não é te tornar mais sincera. É diminuir a distância — até que editar deixe de ser necessário.

Leary, M. R., & Kowalski, R. M. (1990). Impression management: A literature review and two-component model. Psychological Bulletin, 107(1), 34–47.

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